quarta-feira, 11 de março de 2015

«Hillarity» (Parte 2)

(QUATRO adendas no final deste texto.)
Cada vez mais, a cada dia que passa, e há vários meses, talvez até desde há cerca de um ano, a victória de Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016 parece menos inevitável e mesmo provável. Aliás, a hipótese de ela nem sequer se candidatar surge como crescentemente possível. Porquê? Porque as gaffes, os erros, as situações dúbias, os escândalos, até as ilegalidades, em que ela regularmente se envolve, ou se deixa envolver, tornam menos certa essa (quase) certeza…
… E a mais recente «bronca» a estalar e a afectar a mãe de Chelsea é particularmente grave: o New York Times (!) revelou, e na sequência da investigação que um comité do Congresso continua a fazer sobre o atentado em Benghazi em 2012, que Hillary Clinton só utilizou uma conta de correio privada enquanto foi secretária de Estado – sim, para assuntos relacionados com a sua actividade governativa e diplomática – e não uma estatal, do próprio DdE, como estava obrigada a fazê-lo… por normas aprovadas pela própria administração de Barack Obama! Nem sequer procedeu, pelo menos, a uma permanente cópia, armazenamento e entrega d(e todas)as mensagens, e tal procedimento só recentemente, e parcialmente, terá sido feito… em papel! Mas há mais e melhor… ou pior: a sustentar tal conta de correio privada estava (está) um servidor próprio que ela fez instalar na sua casa de Nova Iorque! São evidentes os perigos que tal práctica acarretou, em especial os de as comunicações relativas à política externa dos EUA serem alvo de um ataque informático por estarem a ser processadas num sistema menos seguro, menos reforçado. Além disso, dificulta, ou até mesmo impede, uma fiscalização dos actos de um(a) (alto(a)) funcionário(a) público(a) por parte de outros órgãos de soberania – nomeadamente, o Congresso – e de órgãos de comunicação social, além de instituições e cidadãos que procuram documentos oficiais e a eles pedem acesso através do «Freedom of Information Act (FOIA)».
Lawrence O’Donnell, da MSNBC (quem diria!) resumiu bem o problema: o sistema «caseiro» para o correio electrónico de Hillary Clinton constitui(u) uma «espantosa quebra de segurança (nacional)» e foi «desenhado para desafiar a lei». Como quase sempre acontece com os democratas, também neste caso é bem evidente a hipocrisia daqueles: em 2007 a então senadora por Nova Iorque e candidata presidencial criticou e condenou a administração de George W. Bush por alegados procedimentos menos transparentes, e mesmo ilegais, relativos a comunicações; mais tarde, já na actual administração, o embaixador Scott Gration – que, como todos os outros, estava sob a sua tutela – foi forçado a demitir-se (do seu posto no Quénia) por ter utilizado correio electrónico privado; e, de um modo geral, as normas obrigando à utilização de correio electrónico do (Departamento de) Estado tornaram-se mais restritivas para os seus funcionários nos últimos seis anos. Bem que podem tentar desviar as atenções, dizendo que, por exemplo, Jeb Bush e Scott Walker – por «coincidência», dois dos principais favoritos à nomeação republicana – também tiveram problemas semelhantes… o que não é verdade, e, mesmo que fosse, não desempenha(ra)m cargos federais, não exerceram funções que obrigam a lidar com matérias de política externa, defesa e segurança. Enfim, este episódio apenas vem confirmar uma certeza, uma imagem há muito associada aos Clinton: as leis são para os outros, e eles estão acima delas.      
Demonstrando mais uma vez que na Casa Branca não há qualquer noção do ridículo e que lá tomam todos (ou quase) os americanos por estúpidos, Josh Earnest declarou que Barack Obama soube deste problema da sua ex-secretária de Estado… pela comunicação social. Tal como em tantas (semelhantes) ocasiões… Uma desculpa que já não «pega», se é que alguma vez «pegou»: acaso é admissível que, durante quatro anos, no Nº 1600 da Avenida da Pensilvânia e em outras instituições federais, nunca se tivesse recebido uma mensagem de correio electrónico de Hillary Clinton e não se tivesse reparado que o «e-ndereço» não tinha a designação «state.gov» ou outra similar mas sim… «clintonemail.com»? Claro que não, e entretanto confirmou-se que ela e o Sr. Hussein se corresponderam electronicamente. Pelo que Mark Levin tem (como habitualmente) razão: este é (também, mais) um «escândalo de Obama». Aliás, e como demonstra Michelle Malkin, este é (que se saiba) o sexto caso de «problemas» na utilização de correio electrónico registado na actual administração.
Antes deste, e também muito recentemente (há cerca de um mês) outro grande escândalo afectou, e ainda está a afectar, Hillary: o de que vários governos de outros países fizeram doações à Fundação Clinton… no período em que ela era secretária de Estado! O que, sem dúvida, dá um outro – e sinistro – significado à expressão «negócios estrangeiros». Com a agravante de alguns desses países que tão «generosos» foram para com Bill e Hillary serem muçulmanos… e, logo, não se distinguirem por garantir direitos iguais às mulheres, uma causa que a ex-primeira dama aparentemente preconiza. E é, de facto, aparentemente, porque, tal como na Casa Branca sob Barack Obama, também a ex-senadora por Nova Iorque pagou, no Congresso, mais aos homens do que às mulheres.
Se os actos da putativa candidata presidencial não têm sido propriamente encorajadores nem susceptíveis de diminuir as desconfianças, as suas palavras ainda menos têm contribuído para tal. George Will usou de eufemismo para caracterizar Hillary Clinton como não sendo uma oradora fluente… e entusiasmante. Digamos que não caiu bem aquela afirmação de que a América devia sentir empatia para com os seus inimigos – ou seja, deduz-se, também para com o ISIS e a Al Qaeda. Ou a de que as corporações (empresas) não criam empregos, que surgiu como uma variação do infame «you didn´t build that» de Barack Obama – além de que, como recordou Chuck Lane, do Washington Post, pelo menos a NBC criou um emprego para Chelsea Clinton – onde esta ganhou 600 mil dólares num ano. Ou ainda a afirmação (justificação?) de que o Hamas põe os seus mísseis em áreas civis porque a Faixa de Gaza é muito pequena. Ou a de que o «reinício (do relacionamento) com a Rússia» resultou… embora os ucranianos talvez tenham uma opinião diferente. Ou a de que aos defensores da Segunda Emenda da Constituição, segundo ela uma «minoria», não deve ser permitido «aterrorizar a maioria». Ou a de que Abraham Lincoln foi senador pelo Illinois. Ou a de que, quando ela e o marido saíram da Casa Branca em 2000, estavam falidos («dead broke»), o que, pura e simplesmente, é mentira – não estavam é tão abastados quanto desejariam, e que posteriormente viriam mesmo a estar. Agora, chegam ao cúmulo de recorrer a expedientes financeiro-legais para evitarem pagar impostos cuja implementação eles apoiaram!
2014 foi um ano que, como reconheceu, entre outros, Jonathan Karl da ABC, não correu muito bem para Hillary Clinton… na verdade, foi como que um «annus horribilis» que ainda continua em 2015. E que começou, pode dizer-se, no lançamento do seu mais recente livro, «Hard Choices», que não teve o êxito que ela e a editora esperavam. Desde o início que observadores independentes perceberam que seria um desastre e que não justificaria os 14 milhões de dólares (!) que a Simon & Schuster pagou como adiantamento: uma semana depois do lançamento já não estava no «Top 10» e um mês depois já não estava no «Top 100». O que não impediu que ela realizasse uma digressão de promoção da obra, nos EUA e na Europa, com as despesas a serem pagas por organismos do governo federal norte-americano. O que não prejudicou a sua «carreira» pós-Departamento de Estado de conferencista que cobra preços elevados e que faz «exigências de diva» - como, por exemplo, só ela ficar com registos, gravações, dos seus discursos.       
Uma semana depois da notícia no New York Times, Hillary Clinton lá deu uma conferência de imprensa… na sede da ONU, onde, curiosamente, a obtenção de credenciais pela comunicação social é muito difícil. Talvez tenha sido «pior a emenda do que o soneto»: ela «justificou» utilizar um servidor próprio e uma(s) conta(s) privada(s) por ser de maior «conveniência» - um «argumento» que Lawrence O’Donnell (outra vez!) não aceita – e prometeu que não transmitiu material confidencial. Porém, desde quando é que os Clinton são dignos de confiança? Ficou evidente nesta ocasião que pelo menos um deles mente: Hillary disse que uma parte significativa das mensagens dos seus quatro anos como secretária de Estado foram privadas e trocadas com o marido, mas o porta-voz deste declarou que o Nº 42 só enviou dois e-mails em toda a sua vida! E, afinal, quantos aparelhos é que ela usa?
A situação é de tal modo confrangedora que Mark Halperin, Maureen Dowd e Ron Fournier, todos insuspeitos de serem direitistas, expressam agora dúvidas não só quanto ao sucesso da sua (potencial) candidatura mas também quanto à própria concretização da candidatura! Já lá vai o tempo em que Sally Kohn declarava que Hillary Clinton devia ser presidente, não apenas dos EUA, mas do Universo! Agora, a ideia de ela ser presidente porque «é a vez dela», ou porque é a vez… de uma mulher, já não chega.  
(Adenda – Os que pensa(ra)m, e deseja(ra)m, que o «caso do e-mail» deixe de o ser… desistam: ele está para ficar, e novas e assombrosas (ou nem tanto, tratando-se dos Clinton) revelações vão sucedendo-se. Primeira, independentemente de ter sido ou não o único aparelho que usou enquanto secretária de Estado, o Blackberry de Hillary não lhe foi dado pelo respectivo Departamento… e esteve, durante pelo menos dois meses, sem protecção específica (encriptação) contra eventuais ataques informáticos. Segunda, pelo menos 30 mil mensagens foram apagadas no seu servidor pessoal… sem serem lidas, tendo o critério usado sido uma busca por palavras-chave – o que, obviamente, não é uma garantia de que conteúdos relevantes tivessem sido poupados. Terceira, desconhece-se se ela terá preenchido e assinado o formulário OF-109 do DdE, obrigatório para todos os que cessam funções naquele departamento e que deve listar, e confirmar, a entrega e/ou a reprodução de todas as comunicações produzidas, emitidas e/ou recebidas. Portanto, sim, Hillary provavelmente não cumpriu uma série de leis, normas e regulamentos, e até é possível que pela segunda vez um Clinton venha a responder por perjúrio. Até no Gawker – que vai processar o DdE (tal como a Associated Press) apesar de não ser propriamente um órgão da direita – se usa a expressão «nixoniano»!) 
(Segunda adenda – Não havendo qualquer dúvida – aliás, ela própria o admitiu na conferência de imprensa na sede da ONU – de que Hillary Clinton não só não entregara ao governo federal todas as suas mensagens electrónicas emitidas e recebidas enquanto foi secretária de Estado como também apagara, indevidamente, uma grande quantidade daquelas, a questão era saber se era culpada de perjúrio ou de roubo (de documentos estatais) mediante o ter preenchido e assinado, ou não, o impresso OF-109 do Departamento de Estado. Hoje (17 de Março), e finalmente, a porta-voz daquele, Jen Psaki, esclareceu: Hillary não preencheu nem assinou. Logo, é culpada de roubo.)     
(Terceira adenda – Mas será que Hillary Clintom dotou o seu sistema privado – que usou para assuntos estatais – de correio electrónico com algum tipo de protecção? O mais básico, pelo menos? É duvidoso que tal tenha acontecido, porque agora descobriu-se que o seu servidor pessoal esteve desprotegido contra o chamado «spoofing». E vem ela, com um inacreditável, e hipócrita, atrevimento, alertar contra o perigo de a revogação do «ObamaCare» permitir às seguradoras «escreverem as suas próprias regras»! Um procedimento que, obviamente, não é prejudicial se for um Clinton a fazê-lo… E se ela decidir também dar lições quanto a desperdício de dinheiros públicos e ao «aquecimento global», é lembrar(-lhe) que, quando era senadora, foi quem gastou mais em voos privados.)  
(Quarta adenda – Hillary Clinton pode ainda (por quanto tempo?) beneficiar de uma considerável vantagem nas sondagens para a eleição do(a) próximo(a) presidente dos EUA, e constituir potencialmente a vencedora antecipada em muitos (ou a maioria dos) Estados se concorrer, mas se há um em que quase de certeza não triunfará é aquele onde o marido já foi governador e ela primeira-dama. Aquando das últimas midterms ambos participaram na campanha de candidatos democratas no Arkansas… mas sem sucesso (para os «burros»); aliás, e pela primeira vez em quase 150 anos, todos os congressistas (e os dois senadores e o governador) daquele Estado são republicanos! Porém, Hillary tem um problema pior para enfrentar na sua caminhada para a Casa Branca: o passado (e o presente?) sórdido de Bill; como se não chegassem todas as mulheres que ele alegadamente assediou, violou e com quem «adulterou», vieram revelações de que ele tem um pedófilo e organizador de orgias como amigo… No campo das agressões sexuais, a ex-secretária de Estado também tem os seus «esqueletos no armário», mais concretamente a orgulhosa defesa que fez, enquanto advogada, de um – comprovado – violador. E, se recuarmos mais no tempo, a recordação da correspondência que trocou com Saul Alinsky poderá trazer-lhe muitas desvantagens.)

2 comentários:

Fernando Ferraresi disse...

Impressionante como essa Hillary é incompetente. Pela sua experiência com eleições americanas, você acha que a candidatura dela está morta?

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Ainda não...