O
passado dia 4 de Julho não foi, como se sabe, um 4 de Julho qualquer nos
Estados Unidos da América. Sim, foi mais um dia feriado, e o dia feriado mais
importante daquele grande país, mas revestiu-se de uma importância ainda maior
do que é habitual em outros anos porque neste celebrou-se o 250º aniversário da
Declaração da Independência, e, logo, da fundação dos EUA como nação. Uma
efeméride especial que contribui para o contraste entre, e o respectivo debate
sobre, as datas fundamentais da história do país, e principalmente, a questão
de porque há um «Black History Month» (em Fevereiro) e um «Gay Pride Month» (em
Junho) mas não um inteiramente dedicado à exaltação patriótica, que, com toda a
lógica, seria Julho. A acontecer, tornar-se-ia como que no mês do orgulho
«yay», do sim, da positividade, do empreendedorismo, do optimismo yankee...
...
E de um espírito que existia, e que foi preponderante, determinante, aquando da
revolução de 1776. Miguel Morgado, que escreveu o posfácio para a minha
tradução de «Discursos» de Abraham Lincoln, e que desta fez a apresentação no
passado dia 3 de Julho em Lisboa, é um profundo conhecedor do tema, e sobre ele
escreveu e publicou dois artigos, um antes e outro depois de 4 de Julho, em
outros tantos jornais de que é colaborador. O primeiro é intitulado «A Revolução na América», no Expresso: «Em 1863, diante do campo de batalha mais
sangrento da Guerra Civil, em Gettysburg, Lincoln afirmou que a Revolução
americana fora o primeiro nascimento da liberdade e a fundação do “governo do
povo, pelo povo, para o povo”. Para Lincoln, a Revolução abrira o horizonte
moral da Humanidade para a possibilidade política do regime da liberdade e da
igualdade. Habituados como estamos a associar esse acontecimento decisivo à
Revolução em França, talvez estranhemos o julgamento histórico de Lincoln.
Talvez seja essa a medida do paroquialismo de Lincoln – ou a medida da nossa
ignorância. De facto, a Revolução americana teve tudo: uma ideologia de
emancipação, um separatismo independentista, uma insurreição nacionalista,
anti-imperialista, anti-colonialista e um apelo universalista e evangelizador.
Criou um “asilo para a Humanidade” (Paine), profetizado 140 anos antes pelo
pregador John Wintrop como “uma cidade na colina”. Deu ao género humano, nas
palavras de Lincoln 90 anos depois, “a última e melhor esperança”. Porém, como
em todas as revoluções, as várias facções e partidos que dela surgiram tentaram
reivindicar para si o monopólio do seu sentido histórico e do seu alcance. John
Adams escreveria logo em 1790 ao seu amigo Benjamin Rush, duas figuras maiores
deste período e da fundação da república federal americana, que “a história da
nossa revolução será uma mentira pegada de uma ponta à outra”. As causas
próximas da revolução não são particularmente interessantes. Mas basta dizer,
pela familiaridade do problema, que decorria uma crise orçamental que a sede do
império britânico queria resolver tributando as colónias e monopolizando as
linhas comerciais. Mais interessantes, porém, são as suas causas remotas que
podemos associar à ideologia proto-liberal inglesa e francesa, ao
protestantismo “não-conformista” com as suas pulsões próprias e à tradição
inglesa política e jurídica da colonização transformada pelo legado do século
anterior duradouramente revolucionário. (...)»
O
segundo artigo de Miguel Morgado é intitulado «Nascimento de uma nação», no
Observador: «Por estes dias, os Estados Unidos comemoram a sua data fundadora,
o 4 de Julho (de 1776). Não é para menos. Os acontecimentos que esse dia pôs em
marcha, e que se sucedem até hoje, transformaram irreversivelmente a História
da Humanidade. Proclamando princípios liberais de liberdade e de igualdade, do
governo limitado e legitimado pelo consentimento popular, do direito colectivo
à revolução contra a tirania, os revolucionários instituíram a primeira
república representativa constitucional que o mundo jamais conhecera. Mais,
faziam-no para um território de grandes proporções e preparada para uma
população, que sendo exígua à data da revolução, se queria grande e em expansão
perpétua. Seguindo precedentes ingleses e holandeses, pastores e pregadores do
“não-conformismo” protestante conciliavam os princípios da liberdade com a
devoção cristã e o proselitismo universal. Como se não bastasse, os americanos
aperfeiçoariam com uma extraordinária ciência e presciência a estrutura federal
como modo constitucional de conjugação da unidade, da escala e do poder, por um
lado, com a particularidade e o governo local, por outro. (...)» Excertos dos dois artigos podem igualmente ser lidos aqui e aqui.
Os
Estados Unidos da América têm sido não só uma nação de sucesso mas também uma
experiência de sucesso, e tal deve-se primeiro e principalmente à sua Constituição
não ideológica, estável e não susceptível a grandes e regulares «revisões», e, depois,
às instituições políticas criadas na sequência da redacção e da aprovação
daquela. Porém, o recrudescimento do extremismo esquerdista no Partido
Democrático, ironicamente revelado neste ano do 250º aniversário, é uma ameaça que
não deve ser minimizada. Os «Pais Fundadores» construíram a casa, e cabe aos
seus verdadeiros descendentes – aqueles que sabem e compreendem que os EUA não
têm de ser «transformados fundamentalmente» - mantê-la pelo menos, o que não é
pouco, o que não é tarefa pequena, e, se possível, melhorá-la e aumentá-la.
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