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sexta-feira, 24 de julho de 2026

O mês do orgulho «yay»

O passado dia 4 de Julho não foi, como se sabe, um 4 de Julho qualquer nos Estados Unidos da América. Sim, foi mais um dia feriado, e o dia feriado mais importante daquele grande país, mas revestiu-se de uma importância ainda maior do que é habitual em outros anos porque neste celebrou-se o 250º aniversário da Declaração da Independência, e, logo, da fundação dos EUA como nação. Uma efeméride especial que contribui para o contraste entre, e o respectivo debate sobre, as datas fundamentais da história do país, e principalmente, a questão de porque há um «Black History Month» (em Fevereiro) e um «Gay Pride Month» (em Junho) mas não um inteiramente dedicado à exaltação patriótica, que, com toda a lógica, seria Julho. A acontecer, tornar-se-ia como que no mês do orgulho «yay», do sim, da positividade, do empreendedorismo, do optimismo yankee...
... E de um espírito que existia, e que foi preponderante, determinante, aquando da revolução de 1776. Miguel Morgado, que escreveu o posfácio para a minha tradução de «Discursos» de Abraham Lincoln, e que desta fez a apresentação no passado dia 3 de Julho em Lisboa, é um profundo conhecedor do tema, e sobre ele escreveu e publicou dois artigos, um antes e outro depois de 4 de Julho, em outros tantos jornais de que é colaborador. O primeiro é intitulado «A Revolução na América», no Expresso: «Em 1863, diante do campo de batalha mais sangrento da Guerra Civil, em Gettysburg, Lincoln afirmou que a Revolução americana fora o primeiro nascimento da liberdade e a fundação do “governo do povo, pelo povo, para o povo”. Para Lincoln, a Revolução abrira o horizonte moral da Humanidade para a possibilidade política do regime da liberdade e da igualdade. Habituados como estamos a associar esse acontecimento decisivo à Revolução em França, talvez estranhemos o julgamento histórico de Lincoln. Talvez seja essa a medida do paroquialismo de Lincoln – ou a medida da nossa ignorância. De facto, a Revolução americana teve tudo: uma ideologia de emancipação, um separatismo independentista, uma insurreição nacionalista, anti-imperialista, anti-colonialista e um apelo universalista e evangelizador. Criou um “asilo para a Humanidade” (Paine), profetizado 140 anos antes pelo pregador John Wintrop como “uma cidade na colina”. Deu ao género humano, nas palavras de Lincoln 90 anos depois, “a última e melhor esperança”. Porém, como em todas as revoluções, as várias facções e partidos que dela surgiram tentaram reivindicar para si o monopólio do seu sentido histórico e do seu alcance. John Adams escreveria logo em 1790 ao seu amigo Benjamin Rush, duas figuras maiores deste período e da fundação da república federal americana, que “a história da nossa revolução será uma mentira pegada de uma ponta à outra”. As causas próximas da revolução não são particularmente interessantes. Mas basta dizer, pela familiaridade do problema, que decorria uma crise orçamental que a sede do império britânico queria resolver tributando as colónias e monopolizando as linhas comerciais. Mais interessantes, porém, são as suas causas remotas que podemos associar à ideologia proto-liberal inglesa e francesa, ao protestantismo “não-conformista” com as suas pulsões próprias e à tradição inglesa política e jurídica da colonização transformada pelo legado do século anterior duradouramente revolucionário. (...)»
O segundo artigo de Miguel Morgado é intitulado «Nascimento de uma nação», no Observador: «Por estes dias, os Estados Unidos comemoram a sua data fundadora, o 4 de Julho (de 1776). Não é para menos. Os acontecimentos que esse dia pôs em marcha, e que se sucedem até hoje, transformaram irreversivelmente a História da Humanidade. Proclamando princípios liberais de liberdade e de igualdade, do governo limitado e legitimado pelo consentimento popular, do direito colectivo à revolução contra a tirania, os revolucionários instituíram a primeira república representativa constitucional que o mundo jamais conhecera. Mais, faziam-no para um território de grandes proporções e preparada para uma população, que sendo exígua à data da revolução, se queria grande e em expansão perpétua. Seguindo precedentes ingleses e holandeses, pastores e pregadores do “não-conformismo” protestante conciliavam os princípios da liberdade com a devoção cristã e o proselitismo universal. Como se não bastasse, os americanos aperfeiçoariam com uma extraordinária ciência e presciência a estrutura federal como modo constitucional de conjugação da unidade, da escala e do poder, por um lado, com a particularidade e o governo local, por outro. (...)» Excertos dos dois artigos podem igualmente ser lidos aqui e aqui
Os Estados Unidos da América têm sido não só uma nação de sucesso mas também uma experiência de sucesso, e tal deve-se primeiro e principalmente à sua Constituição não ideológica, estável e não susceptível a grandes e regulares «revisões», e, depois, às instituições políticas criadas na sequência da redacção e da aprovação daquela. Porém, o recrudescimento do extremismo esquerdista no Partido Democrático, ironicamente revelado neste ano do 250º aniversário, é uma ameaça que não deve ser minimizada. Os «Pais Fundadores» construíram a casa, e cabe aos seus verdadeiros descendentes – aqueles que sabem e compreendem que os EUA não têm de ser «transformados fundamentalmente» - mantê-la pelo menos, o que não é pouco, o que não é tarefa pequena, e, se possível, melhorá-la e aumentá-la.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Apresentado, e agora depende de vocês

Tal como anunciado aqui, e ainda nos muitos convites que enviei atempadamente, decorreu no passado dia 3 de Julho, no El Corte Inglés de Lisboa, a (primeira) apresentação de «Discursos» de Abraham Lincoln, que seleccionei e traduzi; uma obra editada pela Alma dos Livros e que constitui o primeiro volume impresso em Português com textos escritos pelo 16º Presidente dos Estados Unidos da América. Além de para a AdL, que tornou esta ocasião possível, e para o ECI, que tão bem recebeu os que compareceram na sua sala de Âmbito Cultural, o meu – e o maior - «muito obrigado» vai para Miguel Morgado, que me honrou com o posfácio que escreveu para o «Discursos» e com a sua presença e a sua alocução, ao meu lado na mesa durante a apresentação. Entre os espectadores, e além da minha família imediata (esposa, três filhas, dois genros e uma neta), devo destacar Jonathan Nwosu, em representação da Embaixada dos EUA e do Embaixador John Arrigo, com quem conversei sobre o meu trabalho neste projecto, a minha admiração pelo «Honest Abe», a minha paixão pela grande nação do outro lado do Atlântico na véspera de ela celebrar o seu 250º aniversário...
... O que plenamente justificava os desejos de «parabéns» antecipados que então expressei ao diplomata. E, no dia seguinte, 4 de Julho, do Atlântico ao Pacífico, do Alaska ao Hawaii, os norte-americanos festejaram a sua pátria no seu principal dia feriado, tendo a Casa Branca e o Presidente Donald Trump assumido o papel e o protagonismo principais, algo aliás perfeitamente previsível e inevitável. Há que, porém, reconhecer que nem todos os norte-americanos sentem felicidade e orgulho em serem... norte-americanos. Refiro-me, obviamente, aos de esquerda, aos democratas, que, em especial desde 1976, aquando do bicentenário, sentem-se cada vez menos patrióticos, e há sondagens que o indicam. Essa atitude, esse «estado de espírito», agravou-se compreensivelmente desde 2016, quando DJT conquistou pela primeira vez a presidência, e, uma década depois, foram muitos os «burros», na política, nos media e no entretenimento, que se esforçaram para expelir os mais ofensivos e/ou os mais ridículos disparates a despeito das (sem dúvida saudáveis) exaltações nacionalistas: vejam-se, entre outros, os casos de Adelita Grijalva, Alicia Keys, Sunny Hostin, Chuck Todd, Jasmine Crockett, Kyle Kulinski, Nicholas Kristof, Robin Givhan e Zohran Mamdani. A repulsa, a rejeição da «stars and stripes» e dos seus significados representa, mais do que um «padrão», uma «tradição» dos democratas que vem da Guerra Civil, durante a qual eles optaram pela bandeira confederada; posteriormente, e além de queimarem regularmente o símbolo nacional, foi frequente marcharem com outros estandartes dificilmente consensuais como o arco-íris e o «palestiniano». Agora, compare-se, e contraste-se, as «birras» injustificadas destes esquerdistas «cidadãos», que não valorizam o que de positivo têm, com as reacções de surpresa, agrado e deslumbramento por parte de muitos estrangeiros de visita aos EUA, europeus e não só, para assistirem aos jogos do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026. Estrangeiros esses que se aperceberam, enfim, de que quase todos os órgãos de comunicação social dos seus países, e também a maior parte dos dirigentes políticos, lhes mentiram ao longo de anos e de décadas sobre a realidade da vida nos «States». E isto porque a América suscita (muita) inveja há 250 anos, como bem salientou Alberto Gonçalves.
A partir de hoje, 8 de Julho, «Discursos» de Abraham Lincoln está à venda em praticamente todos os espaços onde se vendem livros em Portugal, o mesmo é dizer, livrarias e grandes superfícies comerciais. Impelido por esta continuada celebração da independência, e depois de apresentado, agora depende de vocês, os leitores, proporcionarem a este trabalho o sucesso que ele eventualmente mereça. (Também no Octanas.)