Será um caso – um problema - de amnésia? Se é, tem estado a piorar consecutivamente e consideravelmente. Ao decidir e anunciar, no passado dia 15 de Junho, conceder uma autêntica amnistia a muitos milhares – talvez a quase um milhão! – de imigrantes ilegais através de uma ordem executiva, Barack Obama faz exactamente o contrário daquilo que disse há pouco mais de um ano: «Existem leis suficientes nos livros pelo Congresso, que são muito claras em termos de como temos de implementar o nosso sistema de imigração, que, para mim, ignorar, através simplesmente de uma ordem executiva, esses mandatos congressionais, não estaria conforme ao meu papel apropriado como presidente.»
Deve-se dizer
que, à partida, dificilmente se colocaria em causa o (bom) princípio, vá lá,
moral, que está no cerne desta iniciativa. Quem acredita que os filhos não
devem ser punidos pelos «pecados» dos pais não pode deixar de concordar que o
governo federal dos EUA cesse a deportação de imigrantes ilegais que tenham
entrado involuntariamente no país com menos de 16 anos, e que agora tenham
menos de 30, um cadastro criminal limpo, (pelo menos) um diploma liceal ou tenham
prestado serviço nas forças armadas. Contudo, impõe-se a pergunta: neste caso
os fins justificam os meios? Por se tratar de um assunto tão importante e
sensível haveria toda a conveniência em se estabelecer uma política consensual,
convergente, bi-partidária, de longo prazo. Marco Rubio, em especial, tem estado a trabalhar nesse sentido desde que entrou para o Senado, e viu algumas das
suas propostas, que antes eram criticadas pelos liberais, serem agora
apropriadas e louvadas por aqueles… devido a serem apresentadas por um
presidente democrata. Enfim, é uma decisão populista, desesperada, demagógica
e, quase de certeza, ilegal, inconstitucional, porque entra em matérias que são
da competência (quase) exclusiva do Congresso, do poder legislativo; e
eleitoralista, porque apela a um grupo específico da população, tal como o
tinha sido a decisão de «apoiar» o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Porém, poucos
dias depois, ainda não satisfeito, talvez, com a quantidade de polémica que
provocara… e que o prejudicara, Barack Obama resolveu exercer novamente o seu
poder de… executar, desta vez através do «privilégio executivo», para isentar
Eric Holder de entregar ao Congresso todos os documentos que aquele exige
relacionados com o caso «Fast & Furious». Já alvo de um processo de
contempt (acusação de desobediência, desrespeito, desprezo para com os
representantes do povo) por parte dos congressistas, o attorney-general vê
enfraquecida, e não reforçada, a sua posição com a decisão do presidente –
aumentando ainda mais as suspeitas, e quase certezas, de que o Departamento de
Justiça cometeu graves erros, e até ilegalidades, no programa de entrega
(des)controlada de armas a traficantes de droga mexicanos. Mais: Holder, ao
pedir a protecção do «chefe», também se «esqueceu» do que prometeu em 2009 – de
que seria o «advogado do povo», distante da Casa Branca; e Obama, com a sua
decisão de conceder uma «amnistia» (pessoal e temporária) a Holder, envolve-se
ele próprio, directamente, no processo, tornando-se igualmente suspeito aos
olhos da opinião pública. Ou então foi mais um acesso de amnésia: em 2007
criticara o (ab)uso, por parte de George W. Bush, daquele mesmo poder. E
àqueles que agora se indignam por Marco Rubio exigir a demissão do actual AG
deve-se… recordar que, também em 2007, o então senador pelo Illinois exigiu –
por motivos muito menos graves – a demissão de Alberto Gonzales, AG do Nº 43. A
hipocrisia é tão evidente e escandalosa que nem Jon Stewart resistiu a
satirizá-la…
Aqueles que estão mais à esquerda dirão que
Barack Obama não tem «lapsos de memória» mas que, simplesmente… «evolui»; não
é, nunca foi um «flip-flopper», um «vira-casacas», um adepto de «o que hoje é
verdade amanhã é mentira». Que ideia! É por isso que ele já «evoluiu» não só
sobre o «casamento gay» e os poderes executivos do presidente mas também, entre
outros temas, sobre o financiamento público de campanhas eleitorais, o aumento
da dívida, o mandato individual na reforma da saúde, o encerramento da prisão
de Guantanamo e o julgamento de terroristas em tribunais civis nos EUA – agora,
e pelo contrário, esses terroristas, integrantes ou não de alguma «kill list»,
são simplesmente abatidos (à queima-roupa, por Navy Seal’s, ou à distância, por
drones) sem sequer se procurar, antes, obter informações deles. O que se
compreende, porque, «coitados», se fossem detidos e não mortos poderiam ser
sujeitos a essa «tortura desumana» que é o waterboarding – que, recorde-se, foi
aplicada a apenas três pessoas e nenhuma delas morreu por causa disso.
Enfim, também
já se pode afirmar que, em Barack Obama, a «amnésia» surgiu precocemente. Desde
logo, por não ter a certeza onde nasceu, no Havai ou no Quénia – sim, ele foi o
primeiro birther. E, depois, por se ter «esquecido» de divulgar que: foi membro
do (esquerdista e radical) Partido Novo; foi apoiado pelos Socialistas Democráticos da América; e tinha mesmo uma relação de amizade com Bill Ayers e Bernadine Dohrn, tendo frequentado a casa do casal de antigos terroristas pelo menos até
2005. No entanto, haja uma certa tolerância: o «mal» parece ser de família,
porque o seu avô paterno, afinal, e ao contrário do que alegaram o próprio e os
seus descendentes, não terá sido aprisionado e torturado pelos ingleses. Por
tudo isto a ver vamos se, no futuro, não será Barack Obama a precisar de uma
amnistia.